Sobre comer cadáveres
uma reflexão sobre inconsistência moral no que escolhemos justificar.
Nós, como sociedade, comemos cadáveres e normalizamos essa prática.
Eu entendo que o que eu vou dizer pode desanimar alguns (aguenta firme), mas por “cadáveres”, quero dizer animais não humanos mortos. Deixe-me expandir.
É comum, quando com fome, abrir a geladeira e pegar um peito de frango do almoço de ontem pra comer. Esta é uma ação simples, quase automática. No entanto, ela possui imenso potencial para reflexão.
A maioria de nós (eu espero) concordaria que chutar um cachorro sem motivo é errado. Então por que matar e comer uma vaca é considerado “ok”, quando na maioria dos casos, essa morte não é uma questão de sobrevivência, mas de hábito?
Existe alguma diferença substancial entre esses dois que justificaria matar um mas não chutar o outro? Pessoalmente, acho que não. Em ambos os casos, estamos lidando com seres sencientes — indivíduos capazes de sentir dor, medo e angústia.
Alguém poderia argumentar que a diferença está no fato de que cachorros são animais de estimação e vacas não, ou que vacas existem com o propósito de serem comidas. Mas essa linha de raciocínio encontra alguns problemas. Guaxinins, por exemplo, não são animais domesticados, mas chutar um sem motivo também seria condenado. Até mesmo a imagem de alguém agredindo uma vaca causaria desconforto na maioria das pessoas.
Então por que a morte e consumo desnecessários de uma vaca — um indivíduo que não quer ser morto ou comido — é razoável, enquanto o abuso desnecessário desse mesmo indivíduo não é?
Se levarmos nossas próprias intuições morais a sério, fica difícil ver como um ato pode ser justificado enquanto o outro é condenado.
